A lenda chamada Levon Helm

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Esse foi um dos caras que transformaram minha cabeça quando o assunto é música. Foi baterista e o mais expressivo vocalista da banda canadense The Band. Levon Helm era o único americano do conjunto que acompanhava Bob Dylan em suas turnês, antes de lançar seus brilhantes discos sem o bardo. Sua voz não tem o mesmo poder de outrora, e falha em muitos momentos – consequências da idade e de um câncer de garganta que quase acabou com sua carreira. Mas o feeling está todo lá.

Tennessee Jed é uma belíssima versão de um clássico do Grateful Dead – outra entidade musical norte-americana – e abre o lindo disco Electric Dirt, de 2009. Nessa apresentação, David Letterman deixa claro que também é admirador dessa lenda viva:

As letras de Chico

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Nem vou perder tempo falando de Chico Buarque. Já sabemos que ele dispensa maiores comentários. Mas acabei de ver no G1 o mestre comentando sobre seu novo álbum e afirmando: “Com letra não perco para ninguém”. Acho que ninguém ousa discordar. Porém, ontem fiquei sabendo de uma história engraçada sobre isso, envolvendo o falecido gênio Astor Piazzolla. Acabo de encontrar o Chico contando o fato no youtube, o que deixa melhor ainda:

“Calma, calma, o Chico é assim mesmo… Ele vai jogar futebol e deixa a gente sem a letra”

E o que mais?

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Acabou de passar da meia-noite, fechando o 13 de julho. O Dia Internacional do Rock. A data gera bastante comoção entre os amantes de música. Mas tem algo que me incomoda nessa idolatria aos grandes nomes do rock, que fica evidenciada em dias como esse. Parece que, para muita gente, o rock n’ roll é tudo que existe na música. Que o resto é resto.

Sou grande admirador do gênero, afinal, foi ele que me despertou fervorosa paixão pela música, que aumenta a cada dia. Mas, a muitos fãs desse estilo, falta dar um passo à frente. Os dinossauros do rock são fundamentais para a nossa educação musical quando o assunto é música popular (considerando a tradicional divisão entre popular e erudito), porém tem muito mais para ser descoberto.

Não precisaria ver comemorado o dia do blues, o dia do soul, o dia do jazz – apenas para citar alguns dos mais importantes gêneros musicais ocidentais -, mas ficaria muito contente se essa galera começasse a abrir mais a cabeça nessas direções e se divertisse levando em conta mais a música e menos a pose. Digo isso porque a grande revolução que o rock n’ roll promoveu não foi musical – rompeu, sim, inúmeras barreiras nesse campo também, mas surgiu como um blues acelerado, algo muito simples. O grande viés foi a expressão dos jovens, que viriam a se manifestar cada vez mais enfaticamente contra absurdos como guerras e ditaduras. O rock foi a trilha sonora dessa transformação no status quo, virou sinônimo de “atitude”.

O movimento foi importantíssimo, mas até hoje muita gente insiste nessa tecla para qualificar artistas do gênero. Atitude, ao meu ver, é romper com o conservadorismo, que é uma característica, paradoxalmente, impregnada nos roqueiros de hoje.

Eu já aprendi a pensar. O que quero agora é música.

A lacuna

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Ele acordou deitado em um chão duro, envolto por absoluto escuro. Nem sequer um feixe de luz iluminava o ambiente. Mas isso não foi o que lhe preocupou de imediato. Nos primeiros movimentos, começou a sentir dores por todo o corpo. Ao tatear o rosto, descobriu machucados em volta da boca e dos olhos. Fora agredido até perder a consciência, presumiu.

Quando começou a se acostumar com as dores, agravou-se a segunda preocupação: por que ele não se recordava do que havia acontecido? A imagem mais recente na sua memória era a cervejada com os amigos para comemorar a recém acontecida vitória sobre o tradicional time rival no futebol amador. Apesar do jogo ter sido fisicamente muito disputado, ele tinha certeza que os hematomas que lhe conferiam a desagradável sensação de dor não advieram dos 90 minutos de partida.

Sentado no duro carpete, após muito tentar, em vão, recordar-se do que havia acontecido, veio a terceira preocupação: onde, afinal, ele se encontrava? Depois dos primeiros minutos acordado, seus olhos já haviam se adaptado à escuridão do ambiente, mas tudo que conseguia ver eram irreconhecíveis formas.

O jeito era procurar uma fonte de luz. Levantou-se. Antes de completar o segundo passou, deu com a canela em um objeto que, ao manusear, constatou ser uma cadeira. A dor da pancada potencializou o desconforto nas articulações do tornozelo – esse sim pode ter sido originado no jogo.

As pontas de seus dedos eram seus olhos, e ele as utilizava para reconhecer onde estava a mesa. Descobriu pequenas bolas sobre uma cesta de vime. “São frutas de plástico para decoração”, presumiu. “Que nem as que tenho lá em casa”, sorriu, contrastando com a difícil situação na qual se encontrava. Resolveu dar a volta na mesa e tatear a parede, em busca de um interruptor. Só achou um pequeno espelho, com grossa e trabalhada moldura de compensado. Seu anseio por um pouco de luz aumentou – ele queria constatar, no seu reflexo, a gravidade dos ferimentos.

Adiante, uma prateleira segurava alguns livros. Obviamente, foi impossível checar o conteúdo deles. Mas não eram muitos e estavam cobertos por espessa camada de poeira. Acomodou-os desorganizadamente de volta e seguiu até o vértice do cômodo. Na outra parede, achou uma cortina. Imaginou que era feita de crochet e lembrou-se do conjunto que ganhou de sua finada avó, quando se mudou de casa. À medida que reconhecia os objetos, dava-se conta do quão interessante é o sentido do tato, mas tinha coisas muito mais importantes para se preocupar no momento. Dessa maneira, tratou de abrir as cortinas. A rua em frente à casa era mal iluminada e pouco contribuiu para sua visão. Mas esse pouco, somado às demais descobertas, foi capaz de fazer a diferença.

A memória recente ainda estava perdida, mas depois de um estalo na mente, caminhou confiante rumo à outra parede e estocou o dedo de maneira certeira no interruptor, tal qual a flecha de Guilherme Tell acertou a maçã na cabeça de seu filho. A lâmpada acendeu, iluminou a sala e ofuscou seus olhos. Bingo! Ele estava em seu próprio lar.

A alegria durou apenas até lembrar das dores e da ignorância sobre os fatos que antecederam sua perda de consciência. E para trazer luz a essa lacuna, ele não fazia ideia de onde estava o interruptor.

Viandas

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Após encaixar a última vianda no porta-malas do carro, ele olhou para os lados, desconfiado. Uma pequena flor amarela, da miúda árvore da calçada, caiu e pousou em cabeça, mas ele nem percebeu. Sua mulher esperava no banco do carona. Ele tentou dar a partida várias vezes sem sucesso antes do motor finalmente responder. Para a mulher, parecia que cada tentativa durava minutos. Quando a velha parati bege arranca, a desconfiança do motorista não cessa, tampouco o pavor de sua mulher. Ainda havia muito pela frente. Porém, não era aconselhável ter pressa – isso podia complicar ainda mais o trajeto.

Não sabiam se atingir a autoestrada era melhor por se misturar a um grande fluxo de veículos ou se era pior por ser uma via importante e, consequentemente, melhor fiscalizada. De qualquer forma, não adiantava discutir a respeito, pois era o único caminho que podiam pegar. Portanto, permaneceram calados.

Enquanto os quilômetros eram vencidos, o coração da mulher começava a se acalmar e bater mais devagar. Ele permanecia com a expressão fechada. Até que, de longe, avistaram uma movimentação estranha. Era uma blitz. Uma maldita blitz! Ele bateu no volante e esbravejou um palavrão. A mulher começou a suar frio e se lamentar, desesperada. O marido apenas lhe desferiu um olhar rude. Não precisou falar nada – ela entendeu o recado e tentou se acalmar.

Não havia nenhum desvio para escapar da polícia rodoviária. Os dois só podiam torcer para receberem as instruções de seguir em frente. Não aconteceu: o policial mandou encostar. A mulher ficou paralisada. A autoridade se aproximou:

- Bom dia.
- Bom dia. Algum problema?
- Apenas um procedimento padrão. Posso ver os seus documentos?
- Claro.

Tudo em ordem com os documentos. Ele tinha esperança de que fosse apenas isso. Foi quando o policial pediu:

- Vou pedir para que o senhor abra o porta-malas.

Ele engoliu seco.

- Ok…

Ela segurava o choro. Tentava rezar, mas só conseguia imaginar quão horrível seria a vida na prisão. Enquanto ele se dirigia à parte traseira do carro, tratava de se explicar e torcia para que o pior não acontecesse.

- Sou cozinheiro, estou levando algumas viandas com o que sobrou da janta de ontem. Um casamento dos grandes, sabe… Mais de quinhentos convidados. Ainda assim sobrou muita coisa.

Abriu o porta-malas e mostrou as viandas. O pior aconteceu:

- Pode abrir uma vianda para eu ver?

Ele ficou petrificado. Teve de pensar muito rápido.

- Certo… É uma comida exótica, do norte da índia. Eles comem umas coisas muito estranhas lá…

E abriu uma das viandas. O conteúdo era avermelhado e gosmento, apesar da textura consistente. Não parecia nada apetitoso e estava coberto por um molho de um vermelho muito vivo. Os pedaços da tal comida eram um pouco menores do que camarões. O cheiro era horrível.

- Tu serviu essa comida para os convidados?
- É uma iguaria muito apreciada em países orientais.
- Fecha isso de uma vez! O senhor está liberado.
- Ok…

As pernas ainda tremiam. Dessa vez, o carro deu a partida na primeira tentativa. O policial tentou consertar a grosseria:

- Tenha um bom dia.
- Obrigado! O senhor também. Bom trabalho.

E partiu. Em vinte minutos, alcançaram a estrada de chão. Em dez, chegaram no sítio. Tudo parecia seguro agora. Com expressões muito mais serenas, os dois ainda pensavam em alguma possível maneira de descobrirem o acontecido e o local onde estavam, mas ficavam satisfeitos por não encontrarem nenhuma hipótese verossímil.

A mulher estava visivelmente aliviada e apresentava na face um sorriso contido. Só então percebeu a pequena flor amarela, que agora se encontrava gola da camisa do marido. Tirou-a enquanto ele abria o porta-malas e retirava as viandas. Ela o ajudou e os dois entraram na velha casa, ignorando o guaipeca, feliz da vida ao revê-los.

Ele abre as viandas e deposita o conteúdo em inúmeros potes plásticos, que depois são alojados na geladeira. Ela não tem estômago para isso, então vai fazer qualquer outra coisa.

Quatro grandes viandas de cinco peças cada. Foi o necessário para transportar cada pedaço do corpo de Ramon Peixoto, que uma hora mais tarde seria declarado desaparecido pela família, em relato à polícia.

O casal podia descansar aliviado. Era impossível descobrirem.